Guerras Relacionadas ao Petróleo
- UFMG AAPG
- 19 de jan. de 2022
- 6 min de leitura
Por: Matheus Franco
Petróleo e Guerra
O petróleo é uma substância oleosa rica em compostos de carbono e hidrogênio, originada, sobretudo, a partir da matéria orgânica proveniente dos ambientes marinhos do Cretáceo e Jurássico, que foram depositadas e soterradas em bacias sedimentares no fundo dos oceanos primitivos.
As condições de temperatura e pressão nas quais esses compostos orgânicos foram submetidos, juntamente com as reações químicas possibilitadas pela atividade bacteriana, transformaram esse material em um hidrocarboneto de altas potencialidades energéticas, fazendo do petróleo, hoje, a maior fonte de combustíveis do planeta.

Imagem 1: Refinaria de petróleo incendiada na Cidade do Kuwait - Guerra do Golfo – Fonte: AFP- Istoé
Em virtude do valor energético atribuído ao petróleo, desde a perfuração do primeiro poço petrolífero em 1859, na Pensilvânia, Estados Unidos, esse material foi desejo das principais potências mundiais. Por conta disso, é possível listar diversas revoltas e guerras travadas ao decorrer da história recente, as quais tiveram o petróleo como alvo de disputas entre povos e nações.
Segunda Guerra Mundial (1939-1945)

Imagem 2: Ataque japonês à base americana de Pearl Harbor em 1941 – Fonte: Getty Images
Apesar do imperialismo, da ascensão do Nazifascismo e do revanchismo provocado pelos resultados da Primeira Guerra Mundial terem sido os principais motivos que levaram ao maior conflito da história humana, o petróleo se fez importante para as nações beligerantes. A campanha nazista para obtenção do Azerbaijão, parte da antiga União Soviética, que é rica em óleo e gás, é um dos grandes exemplos. Porém, não dá para desvincular a busca pelo petróleo do Ataque Japonês a Pearl Harbor em 1941: os embargos americanos contra os japoneses, limitando a compra de combustíveis, motivou o ataque a base americana no Havaí, levando os Estados Unidos a declarar guerra ao Eixo em dezembro daquele mesmo ano, o que foi de grande importância para a vitória dos Aliados em setembro de 1945.
Guerra do Yom Kippur (outubro de 1973)

Imagem 3: Tropa israelense, Guerra do Yom Kippur, outubro de 1973
A Guerra do Yom Kippur, travada entre árabes e israelenses, apesar da sua curta duração, cerca de vinte dias, teve como consequência o boicote na venda do petróleo na década de 70, acarretando em uma das maiores crises do capitalismo de todos os tempos.
Em 06 de outubro de 1973, os exércitos do Egito e da Síria atacaram Israel em um dos seus mais importantes feriados judaicos, o Dia do Yom Kippur ou Dia do Perdão. Altamente surpreendidos pelo ataque das nações vizinhas, que justificavam o ocorrido pela anexação de territórios egípcios e sírios por Israel em 1967 na Guerra dos Seis Dias, o exército israelense, apesar de importantes baixas, conteve o ataque. Além disso, um cessar-fogo veio rapidamente a partir de ações da ONU (Organização das Nações Unidas), dos Estados Unidos e da antiga União Soviética.
Tal guerra trouxe consequências de dimensões históricas, visto que as nações árabes, aliadas de Egito e Síria, que também integravam a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), organizaram um boicote aos países aliados a Israel, causando o aumento nos preços dos barris de petróleo, que, por conseguinte, desencadeou uma grande crise mundial, conhecida como a Primeira Crise do Petróleo.
Guerra Irã x Iraque (1980-1988)

Imagem 4: Soldado iraniano próxima a uma trincheira durante a Guerra Irã x Iraque - Fonte: Wikipedia Commons
O conflito entre iranianos e iraquianos, nações historicamente rivais, ocorrido na década de 80, teve como motivações questões políticas, religiosas, fronteiriças e, obviamente, o domínio de reservas petrolíferas.
Um ano antes do início do conflito, em 1979, uma revolta popular chamada Revolução Iraniana ou Revolução Islâmica do Irã, levou à queda do governo monárquico pró-ocidente e à ascensão de um governo xiita fundamentalista, representado pelo Aiatolá Khomeini, que era muito crítico ao ocidente e a quem a ele se aliava.
Uma revolta popular xiita como ocorrida no Irã representava um grande risco à manutenção do governo de Saddam Hussein no Iraque, visto que ele era um sunita em meio a uma população com 70% de xiitas e que havia, também em 1979, iniciado uma ditadura no país.
Nesse sentido, a aproximação cada vez mais evidente entre o líder iraniano e a população xiita iraquiana complicou ainda mais a relação entre Irã e Iraque, e então, em 1980, a disputa de anos sobre uma região fronteiriça rica em reservas petrolíferas serviu de pretexto para Saddam Hussein, que tinha grande interesse no controle da região, iniciar uma guerra contra o Irã.
Apesar do apoio dado ao Iraque por países como Arábia Saudita e Estados Unidos, que não tinham interesse em uma revolução islâmica em outros países do Oriente Médio, não houve uma nação vitoriosa ao fim do conflito, haja vista que nem o Irã nem o Iraque atingiram seus objetivos. A guerra, que durou oito anos, no entanto, foi extremamente violenta, levando à morte de mais de 1 milhão de pessoas, encerrando-se em 1988, quando o Irã aceitou um cessar-fogo proposto pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, motivando o Iraque a também declarar um cessar-fogo.
1ª Guerra do Golfo (1991)

Imagem 5: Tanques iraquianos destruídos após mobilização dos EUA contra invasão do Kuwait – Fonte: Brasil Escola
Em 1990, a invasão iraquiana ao Kuwait, país rico em reservas petrolíferas, serviu de motivo para que no ano seguinte, uma coalizão liderada pelos Estados Unidos declarasse guerra ao Iraque de Saddam Hussein, dando origem a um conflito que é hoje conhecido como 1ª Guerra do Golfo.
Depois da Guerra Irã x Iraque a nação iraquiana enfrentava uma grave crise econômica. Saddam Hussein, então líder do país, entendia que para superar essa situação de crise o país precisava adquirir bons lucros com a exportação do seu principal produto, o petróleo.
Por isso, na visão do governante, era favorável que o preço dos barris de petróleo fosse alto, no entanto, essa não era realidade naquele momento, visto que o preço dos barris tinha perdido quase metade do seu valor em dólares no ano de 1990.
Saddam Hussein atribuía principalmente ao Kuwait a responsabilidade pelo baixo preço dos barris de petróleo, acusando o país de vender mais petróleo que o acordado pelos países integrantes da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Ademais, o governante também acusava o Kuwait de extrair petróleo indevidamente de regiões fronteiriças aos dois países.
Naquele contexto a relação entre as duas nações estava bem prejudicada, se tornando ainda pior com a cobrança por parte do Kuwait de dívidas feitas pelo Iraque com empréstimos durante a Guerra Irã x Iraque. A partir de tudo isso, em agosto de 1990, Saddam Hussein contestava a soberania da nação kuwaitiana, invadindo o país no dia 02 daquele mês, o que provocou grande insatisfação internacional, tendo em vista que se a anexação do pequeno país fosse bem sucedida o Iraque teria grande parte das reservas petrolíferas mundiais, desbalanceado o equilíbrio de poder idealizado para a região por países como Estados Unidos e Reino Unido.
A campanha militar para a ocupação do Kuwait foi rápida, assim como a reação internacional após o não recuo de tropas iraquianas estabelecido pela ONU. Essa reação veio por meio da criação de uma coalizão internacional liderada pelos americanos que, em janeiro 1991, iniciou ataques contra o exército iraquiano, liberando completamente o território kuwaitiano e finalizando a 1ª Guerra do Golfo em fevereiro de 1991.
Outros conflitos
Além desses, muitos outros conflitos, sobretudo no Oriente Médio, detentor de quase 50% das reservas mundiais de petróleo (Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás - 2021), ocorreram nas últimas décadas. Dentre eles está a Invasão do Iraque (2003) ou 2ª Guerra do Golfo, que apesar de ser justificada pelos Estados Unidos como combate ao terror, muitos países da comunidade internacional entendem que questões relacionadas ao petróleo também serviram de motivação para os americanos invadirem o Iraque. Outro conflito que pode ser citado e que ainda não teve um fim é a Guerra da Síria e do Iraque (2011-presente), em que o contrabando de petróleo é uma das principais fontes de recursos para a manutenção do grupo terrorista Estado Islâmico, que controla e disputa regiões petrolíferas encontradas na Síria e no Iraque.
Referências:
PINTO, Tales. “Guerra do Yom Kippur e a Crise do Petróleo”.Disponível em <https://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/guerra-do-yom-kippur-e-a-crise-do-petroleo.htm >. Acesso em 18 de dezembro de 2021.
GUERRA DO YOM KIPPUR. Disponível em < https://brasilescola.uol.com.br/guerras/guerra-yom-kippur.htm >. Acesso em 18 de dezembro de 2021.
SILVA, Daniel Neves. "Guerra Irã-Iraque"; Brasil Escola. Disponível em: <https://brasilescola.uol.com.br/geografia/a-guerra-ira-iraque.htm>. Acesso em 19 de dezembro de 2022.
GUERRA IRÃ-IRAQUE. Disponível em < https://escola.britannica.com.br/artigo/Guerra-Ir%C3%A3-Iraque/481581 >. Acesso em 19 de dezembro de 2021.,
GUERRA DO GOLFO. Disponível em < https://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/guerra-do-golfo.htm >. Acesso em 04 de janeiro de 2022.
SILVA, Daniel Neves. "Guerra do Golfo"; Brasil Escola. Disponível em: <https://brasilescola.uol.com.br/guerras/guerra-golfo.htm>. Acesso em 04 de janeiro de 2022.
"Guerra do Iraque foi por petróleo", afirma Greenspan. Folha de São Paulo, 2007. Disponível em <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft1809200701.htm >. Acesso em 12 de janeiro de 2022.
MOURENZA, Andrés. Como funciona o contrabando de petróleo do Estado Islâmico? El País, 2015. Disponível em < https://brasil.elpais.com/brasil/2015/12/05/internacional/1449332363_449457.html>. Acesso em 12 de janeiro de 2022.
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